Enoturismo no Dão - Visita à Quinta do Perdigão (Pindelo de Silgueiros)

Visitar produtores das regiões do Dão ou da Bairrada, tem sido uma actividade regular sempre que a azáfama quotidiana me permite passar alguns dias de férias em Santiaguinho, aldeia da freguesia de S. Vicente de Lafões, próxima de Oliveira de Frades ou Vouzela, concelho de Viseu. Depois de no ano passado ter visitado a Casa da Passarella (Lagarinhos), a Quinta da Fata (Vilar Seco) e o produtor Pedra Cancela (Oliveira de Barreiros), desta feita foi a Quinta do Perdigão que amavelmente abriu as suas portas para mais uma tarde (muito) bem passada.
 
 
 
 
A propriedade situada a 365 metros de altitude, onde José Joaquim Perdigão (arquitecto de profissão) explora 7 hectares, situa-se em Pindelo de Silgueiros, numa localização próxima de outros conhecidos produtores da região demarcada: Vinha Paz (António Canto Moniz) ou Quinta da Falorca (Quinta Vale das Escadinhas).
 
A visita foi positivamente demorada, esclarecedora, didáctica e muito interessante. Tal como os grandes vinhos começam na vinha, também a nossa visita começou por esta belíssima paisagem, onde percebemos que as videiras em volta dão origem a todos os tintos do portefólio da casa, bem como ao Quinta do Perdigão Rosé.

Pudemos apreciar talhões de Jaen (também conhecida em Espanha como Tinta Mencia), Tinta Roriz, Alfrocheiro e Touriga Nacional, afinal o clássico blend com provas dadas em todo o Dão. As plantas são tratadas com todo o carinho e cuidado exigido pelo trabalhoso modo de produção biológico, sendo este um ponto fundamental em todo o projecto. Um sinal claro da boa saúde de todo o ecossistema da quinta é a existência de diversas colónias de libelinhas, que salpicam de movimento e cor o quadro natural que observámos neste final de tarde. Neste aspecto específico a atitude de José Perdigão é idêntica àquela que tem perante a vida: os vinhos devem espelhar verdade, personalidade, bem como respeito e integração plena no meio ambiente em que são produzidos. Esta é uma postura admirável e cativante, que percepcionei logo desde o primeiro contacto.

A carta que aparece fora do baralho é o único branco (e que vinho…) produzido pela Quinta do Perdigão, cujas uvas são provenientes de uma vinha explorada na propriedade de Raquel Mendes Pereira (situada em Carregal do Sal, trata-se de outro dos excelentes produtores da região) num regime especial, um assunto a ser explorado mais pormenorizadamente noutro artigo.

Depois da terra, o betão e a madeira, isto é, visitámos a adega onde toda a magia acontece em cada vindima. Começámos por uma pequena “aula” sobre aromas e especificidades várias dos vinhos da casa, que o produtor faz questão de dissecar em cada contra-rótulo. A adega não é muito grande mas é espaçosa o suficiente para assistir ao nascimento de alguns novos milhares de garrafas, ano após ano. Nota-se o gosto e cuidado com os pormenores, desde capitéis esculpidos em pedra por um reconhecido escultor, a uma colecção de quadros curiosíssimos junto a cada cuba de inox, passando pela exibição dos diversos prémios já conquistados por estes vinhos ao longo da parede na sala de estágio de barricas. 

Visitámos ainda a área de armazenamento das garrafas já cheias, onde pudemos testemunhar um pormenor delicioso: todas as garrafas da Quinta do Perdigão são seladas com uma pequena camada  de lacre de 1 mm, entre a rolha e o final do gargalo de vidro (as rolhas são encapsuladas propositadamente com esta diferença de altura), de modo a preservar melhor o precioso líquido e impedir o oxigénio de deteriorar os vinhos. Um pormenor seguramente distintivo, até porque quando expostas na horizontal na minha garrafeira, as garrafas da Quinta do Perdigão destacam-se das demais precisamente devido ao lacre em tons avermelhados!
 
 


 

A visita não estaria completa sem um brinde no final, e José Perdigão fez questão que fossem provados todos os vinhos aqui produzidos, à excepção do rosé, embora não completamente esgotado, mas com um stock residual nesta fase da comercialização. Refira-se a este propósito que a colheita de 2014 desta referência (ainda nem sequer foi engarrafada!!!), foi já comprada na totalidade para a Noruega… Excelentes notícias portanto! Aqui vos deixo não as notas de prova que apontei sobre todos os vinhos provados, mas antes uma análise global sobre o perfil de cada um. A descrição feita sobre cada vinho, existente no contra-rótulo de cada garrafa, é de tal modo pormenorizada e completa que se tornaria redundante a minha própria (e certamente muito mais incompleta) percepção.
 
Quinta do Perdigão 2009 Tinto
Um tinto do Dão com corpo e presença, gastronómico quanto baste e com um preço verdadeiramente acessível. Resulta da filosofia da casa, segundo a qual nenhuma uva é desperdiçada desde que se encontre em condições de contribuir para fazer vinho. Como primeiro tinto da gama, revela já alguma personalidade. (Classificação: 15,5)
 

Quinta do Perdigão Encruzado 2013 Branco
Não me canso de o dizer, os encruzados do Dão encontram-se no topo das minhas preferências actuais no que a brancos diz respeito, por todos os motivos. Este é mais um belo exemplar, perfumado, complexo, mineral e especiado no palato, exibe ainda um lado austero e impositivo, que lhe augura uma bela vida em cave... O único problema é mesmo segurar estas garrafas na garrafeira lá em casa, pois teimam em querer sair muitas vezes, e em algumas tentativas saem mesmo para não mais voltar... (Classificação: 17,0)



Quinta do Perdigão Alfrocheiro 2009
Bem, este Alfrocheiro impressionou-me. Parece-me um vinho que não será fácil de compreender para a maioria dos consumidores, não é nada imediato mas é um belo desafio. Nariz ainda um pouco fechado a contrastar com um ataque jovem e exuberante na boca, encorpado, especiarias, potente e com um final muito longo. (Classificação: 16,5)
 
Quinta do Perdigão Touriga Nacional 2008
Este monovarietal é mais um vinho que impressiona desde o primeiro momento. Respira harmonia por todos os poros, elegância é a palavra de ordem, com a definição dos aromas e a qualidade da fruta a ditarem as notas para esta sinfonia de predicados. Sedoso na boca, delicado, cheio de classe e muita finesse, um Touriga Nacional de referência, com muita personalidade e garra. (Classificação: 17,5)
 
 
 
Quinta do Perdigão Reserva 2006 Tinto
O meu favorito de toda a prova. Confesso que este é de facto o estilo de tintos que me satisfazem plenamente: encorpado e poderoso, altamente impositivo, uma presença focada na austeridade e no comando em cada encontro com o provador, quase intimidatório, provocante. Revela-se muito complexo, cheio e interminável. Foi um verdadeiro prazer conhecê-lo e figura obviamente na restrita lista dos meus grandes favoritos da região do Dão. Excelente. (Classificação: 18,0)
 
 


A terminar estas linhas que já vão longas, é imperativo reforçar a qualidade muito elevada do trabalho vitivinícola que é desenvolvido na Quinta do Perdigão, e que espelha a personalidade do produtor. Há pessoas e momentos que valem a pena, e muitos vinhos também. Este é um desses felizes casamentos.

Agradeço por último não apenas ao José mas também à sua filha Mafalda, que acompanhou toda a visita e partilhou do entusiasmo que rodeou toda a tarde. É nas suas mãos que jaz a responsabilidade de manter tudo aquilo que o pai já conseguiu. Pelo que vi, o projecto vais ficar em boas mãos por muitos e longos anos. Um grande bem-haja a ambos!
 
 
 
 

PS: A Quinta do Perdigão é um dos produtores presentes no Mercado de Vinhos do Campo Pequeno 2014, que se realiza entre 31 de Outubro e 02 de Novembro. Não deixem de ir e provar estes grandes vinhos do Dão e de Portugal, pois será uma experiência para recordar!



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