A Escola - Cachopos, Alcácer do Sal (Restaurantes)


Junto à EN253, que nos encaminha desde o IC1 até às excelentes praias da Comporta ou do Carvalhal, situa-se um restaurante que ocupa uma antiga escola primária, apropriadamente denominado A Escola.

Posso adiantar desde já que se trata de um destino de visita obrigatória, não apenas para os enófilos em particular, mas também para todos aqueles que não dispensam a boa cozinha tradicional portuguesa. Aqui, o Chefe Henrique Galvão Lopes e a sua equipa, dão a conhecer a excelência e singularidade do património culinário da região do Sado, mantendo-o na memória colectiva de todos os visitantes.


A escolha do edifício é uma ideia feliz e bem enquadrada no espírito deste espaço, uma vez que remete o cliente para tempos idos da infância, onde surgem recordações de experiências diversas, outros sabores, outros aromas...

O espaço envolvente é amplo, onde não falta um largo parque de estacionamento, uma esplanada exterior e o esperado jardim infantil, que faz as delícias da pequenada durante e após as refeições. Logo à entrada, duas velhas barricas saúdam a entrada no restaurante, antecipando um local onde o vinho e tudo o que à sua volta gira é tratado com o carinho recomendado.

O atendimento é afável, familiar e sorridente, o serviço centrado nos desejos do cliente. Com a casa cheia torna-se um pouco mais difícil o acompanhamento de todas as mesas, mas esta é uma complicação comum a muitos outros restaurantes. A carta de vinhos não desilude, embora não prime pela organização exemplar.

Somos presenteados com um dossier largo responsável pelo primeiro sorriso do enófilo, muitas páginas para virar, muitas referências divididas por região, na sua maioria com os anos de colheita indicados. Os valores indicados do lado direito remetem imediatamente para um segundo sorriso, valores comedidos, as margens exploradas são muito aceitáveis e a escolha torna-se difiícil perante a diversidade, qualidade e preços dos vinhos disponíveis. Esta é a melhor carta que já tive nas mãos considerando esses três parâmetros, um mimo!! Há também diversas opções de vinhos a copo, desde os vinhos tranquilos até aos generosos, o que se saúda. Para a refeição optei por uma garrafa de Palpite 2006 Tinto (Fita Preta Vinhos - Alentejo) marcado a 14 €, que se mostrou num momento de consumo muito bom: expressivo e sedutor aromaticamente, nuances de fruta madura, densidade e taninos bem elegantes numa boca redonda, final de boa persistência, uma bela escolha!

 
Quanto à comida, as entradas ficaram a cargo de coelho de coentrada e de cenoura aberta, ambas bem conseguidas. O destaque vai no entanto para a primeira, com um equilíbrio distintivo entre todos os ingredientes, azeite, alho, ervas aromáticas, vinagre e claro, as tiras de coelho.

Passando aos pratos principais, a lista desafia o paladar, faz crescer água na boca e mais uma vez a escolha não é fácil, no entanto, decidimo-nos pela perdiz na púcara e ainda por um dos pratos mais emblemáticos da casa, a empada de coelho bravo com arroz de pinhão. A perdiz na púcara é uma iguaria a não perder para quem aprecia os sabores fortes da caça de penas, excelente na textura e no paladar, este muito intenso devido ao molho bem apurado com as folhas de couve, o nabo e a cenoura, gostos e sabores de outrora a fazerem lembrar receitas das avós de aldeias perdidas... A empada de coelho bravo revelou-se também uma excelente opção, ricamente recheada e cheia de sabor, a massa cozida no ponto e crocante. A acompanhar, cenoura e beterraba cortadas numa juliana fina, uma ligação surpreendente a conferir leveza e frescura à empada. O outro aompanhamento ficou infelizmente longe dos outros elementos, arroz com ligeiro toque de açafrão, pinhões e passas, cozido abaixo do ponto e pouco quente, apesar do contraste de sabores se mostrar interessante. Foi necessário pedir para aquecer novamente pouco tempo depois de ser servido: este foi o único ponto negativo numa refeição francamente bem conseguida. Para outra ocasião ficarão o polvo com batata doce ou o cherne à barqueiro...
 
 

No capítulo das sobremesas, a escolha é também diversificada e apelativa, incidindo desta feita num prato de farófias (a que raramente resisto), muito leves e cremosas, mousse de chocolate a cumprir mas numa textura mais líquida que a minha preferência, e ainda uma magnífica fatia de doce da casa de pinhão com os frutos secos ligeiramente amolecidos, bela caramelização exterior e massa bem saborosa, conjunto muito conseguido. A harmonização estava a pedir um Moscatel Alambre 20 Anos (José Maria da Fonseca - Península de Setúbal) servido a copo (4,80 €), sempre uma garantia de grande complexidade, elegância e requinte nas notas de compota de laranja, frutos secos (avelãs, nozes) e mel, que elevaram este momento de refeição para um patamar de grande excelência, nomeadamente na ligação com o doce da casa de pinhão.

 

 Destaque ainda para a visita do Chefe Henrique Lopes a todas as mesas para saber como decorria a refeição, num momento de partilha sempre de grande simpatia para com todos os presentes. Para terminar, queria apenas reforçar a qualidade geral desta experiência, com a vontade de voltar a manifestar-se logo à saída... Toda a equipa está de parabéns pois o espírito do restaurante reina durante a refeição, e certamente ganhará (ainda) mais adeptos com o passar do tempo, por todos os motivos que vos descrevi. Um trabalho notável que merece a vossa visita!

1 comentário:

  1. amigo Miguel, fico á espera da "crítica" ao Veneza, em Paderne...

    Forte abraço

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