Vinhos do Dão em Lisboa

No passado dia 10 de maio, a Garrafeira Néctar das Avenidas, à qual deixo já os meus parabéns pela boa organização, realizou uma prova dedicada exclusivamente aos vinhos do Dão (diga-se já que é uma das regiões que atualmente faz os vinhos mais interessantes, a meu ver). O local escolhido foi o Hotel Real Palácio.
 
Estiveram presentes cerca de 15 produtores do Dão, de onde destaco a Quinta da Vegia, Quinta do Escudial, Quinta dos Roques, Caves de São João, Quinta da Fata, entre outros. Dos muitos vinhos provados, alguns já bem conhecidos mas mesmo assim sempre um prazer, o meu destaque vai para:
  • Caves de São João Branco 1979: cerca de 35 anos e ainda a mostram uma juventude impressionante, sem duvida um enorme prazer.
  • Villa Oliveira Branco (Casa da Passarella): um branco proveniente de vinhas velhas com um perfil muito diferente e que demostra todo o potencial dos vinhos do Dão.
  • Quinta dos Roques Encruzado, Malvasia Fina e Garrafeira tinto: qualidade mais do que comprovada deste produtor em toda a sua gama de vinhos
  • Quinta do Carvalhão Torto: uma novidade para mim e que aconselho a provar e descobrir.
  • Condessa de Santar Branco
  • Vinhos ALLGO: um novo projeto mais vocacionado para a exportação, mas que reserva uma parte da produção para o mercado nacional, e produz vinhos muito interessantes com uma boa relação preço/qualidade
 Um evento que espero que venha a repetir-se por mais anos, e que ganhe cada vez mais adeptos para que possam descobrir o bom vinho que se faz no Dão.

Boas provas...




 
 
 
 

Herdade do Meio Pinot Noir 2003

Ao deitar no copo, a cor não engana. Vem nos livros, esta auréola cor-de-tijolo em volta de um centro vermelho-escuro, característica de vinhos com alguma idade. Este tem, pois as uvas que lhe deram origem foram colhidas há pouco mais de 10 anos. No aroma o primeiro impacto é especiado, embora pouco intenso, mas parece haver ainda alguma fruta por aqui. Após agitação, as sugestões de terra molhada, húmus e couro são as notas dominantes no bouquet, sempre num registo suave. Na boca o ataque é picante, com intensidade crescente, corpo delgado, embora com alguma acidez ainda presente. O final é personalizado e de bom comprimento, envolvido novamente em especiarias (cravinho). O Herdade do Meio Pinot Noir 2003 está vivo e continua a desafiar o tempo. Extraordinário.
Este é um vinho especial para mim. Conhecemo-nos pela primeira vez há alguns anos e desde esse primeiro encontro até hoje, poucos vinhos me impressionaram tanto. Nessa altura, a estrutura densa, a complexidade de aromas e a força do final extremamente impositivo foram atributos que me deixaram perplexo para um 100% Pinot Noir feito em Portel, no Alentejo. Foi uma das mais inesperadas experiências de prova que tive. A amizade e respeito por este néctar manteve sempre esta última garrafa na garrafeira, até ontem. Chegou a altura de nos despedirmos, e confesso ter sido um momento especial, nomeadamente porque a sociedade agrícola que lhe esteve na origem já não existe, e por isso este é um vinho irrepetível. Esteve na agenda a edição de 2006, mas nessa altura já as complicações financeiras assolavam a Herdade do Meio...

Fica aqui o meu tributo a todos os que contribuíram para esta minha experiência, e para a de todos quantos tiveram o verdadeiro privilégio de provar este vinho único.

Até sempre, velho amigo.
 
 
 
 



Produtor: Casa Agrícola João & António Pombo
Região: Alentejo
Castas: Pinot Noir (100%)
Enólogo: António Saramago 
Produção: 5.000 garrafas
Preço Recomendado: 35 € (Winept - Selecção de Janeiro de 2006)
 
Miguel Zegre escreve de acordo com a antiga ortografia

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