Dirk Niepoort e um vinho do caraças...


Conheci o Dirk Niepoort pessoalmente, em Setembro de 2010. Do que já tinha falado com amigos e conhecedores da realidade vínica deste jardim á beira mar plantado, e do que intensivamente li, todos se referiam a ele como um ícone, um exemplo e um gajo porreiro.

Que ele sabia fazer vinhos, não me surpreendeu. Quem teve por “alunos”, malta como a Sandra Tavares da Silva, Jorge Moreira e o Francisco Olazabal entre outros, não pode ser mau criador de vinhos. Algo ele saberá, de certeza. Quem influenciou tanta gente e tão bem, não pode fazer maus vinhos.
Por isso, foi com alguma “contida” excitação que fui até á Quinta de Nápoles, em Armamar, centro nevrálgico do império Niepoort, passavam meia dúzia de dias do inicio de Setembro. Ok, império é uma palavra muito forte, mas pronto... façam lá o jeito a um gajo...

Já tinha tudo combinado com ele (ele mesmo, respondeu ás minhas mensagens de Facebook e tudo...) e prometi-lhe uma garrafa de Moscatel de Setúbal, para desbloquear uma situação que se tinha criado. Fraco suborno, é verdade, mas o homem cumpriu a parte dele e lá seguiu, direito ao Douro, uma Alambre 20 anos, da JMF...

A Quinta de Nápoles é muito gira, “encravada” num topo de uma elevação, com uma vista espectacular para uma curva do rio Douro. Escusado será dizer que, em principios de Setembro, aquilo fervia de agitação. Eram dezenas de caixas de uva a chegar, tapetes de escolha carregados de cachos, bem... uma azáfama que até fazia suar, só de olhar.

Assim que parei o carro, dei logo com o homem. Não enganava, era mesmo ele. Alto, de óculos, t-shirt, calções e crocs. Por ele, vim a saber mais tarde, andava assim o ano inteiro e segundo uma simpática colaboradora dele, não se recordava de o ter visto com um fato vestido, á excepção do casamento. Não me surpreendeu por isso, uns dias mais tarde, ter visto na TV, aquando de uma visita do Presidente da Républica á adega, que o recebesse da mesma maneira. Excepto o colete. Afinal, recebia-se o Presidente, não é?

Meia duzia de palavras trocadas, juntamente com alguns cumprimentos e meteu logo as cartas na mesa:
- Então e o moscatel, trouxe-o?
- Claro, está ali no carro.
- Então, vamos lá a ver isso.

Fui buscar e entreguei-lho. Ficou a olhar para o embrulho e perguntou:
- É o quê, já agora?
- Um Alambre 20 anos, da JMF.
- Boa, boa... espere aí um bocadinho...

Nisto, pirou-se. Voltou passado uns minutos com uma garrafa na mão. Entregou-a com um sorriso matreiro.
- Era para ser um moscatel cá dos nossos, mas estes gajos beberam tudo ontem á noite, portanto olhe, vai um porto...

Fiquei meio parvo a olhar para o homem. Caraças, mas eu não pedi nada! Dei a garrafa porque quis! E ele vai e mete-me um Tawny 20 anos, nas mãos?!

Claro que aceitei, não sou maluco. Mas reconheço que fiquei um pouco embasbacado.

Depois, seguiu-se a visita ás brutais instalações, primeiro com um estagiário, que ainda não
estava completamente refeito da noite anterior (apresentação da nova colheita dos Douro Boys!) e depois, mais aprofundadamente, com a Gabriela, a chefe do “enoturismo” da Niepoort.

Pediu-nos desculpa pela demora, mas tinha ido ao hospital da Régua com o filho mais novo do proprietário da Quinta do Mouro, que tinha aberto a cabeça num desengaçador, por distracção.

Confessou-nos, muito simpaticamente, que esteve quase para nos pedir para não virmos naquele dia, porque ela estava a adivinhar que aquela rapaziada, Dirk incluído, não estariam a 100%. Volto a frisar o que o Dirk disse, aquela malta tinha bebido o stock inteiro de Moscatel. Só naquela...

Grandes instalações, espectaculares mesmo, controle de frio e tudo mais. E o salão de provas é assim uma coisa, soberba...

Passamos ao almoço e aí sim, reconheço o génio do homem.

Não, não foi ele que fez o almoço, essa parte estava muito bem entregue a uma simpática cozinheira de muitos anos na casa, que nos deleitou com uma sopa espessa e muito saborosa e depois com uma variação de tripas á moda do Porto, que estava divinal!

Todos os vinhos dele e mesmo aqueles em que é “apenas” representante, são pensados com algum tipo de comida em vista. Não digo que seja, “vou fazer um Riesling, porque gosto á brava de marisco e assim já posso dizer que fiz”! Não tem essa especificidade, mas á claramente algo ali. E a escolha não podia ter sido mais acertada.

Já não me lembro bem da ordem, mas depois das novas colheitas dos Lavradores da Feit oria (estava lá o enólogo da casa, Paulo Ruão, a almoçar...), veio mais ou menos por esta ordem:


Morgadio da Calçada 2008 branco, que embora já não tenha grandes memórias dele, tenho a leve lembrança que era correcto. E que estava bem feito. E mais não digo, porque sinceramente não me recordo



Morgadio da Calçada 2007 tinto
. Este lem bro-me bem. Boa cor, um vermelho vivo mas escuro. Bem estruturado, mas notava-se que a elegância das vinhas mais velhas, elevava este tinto a outros voos, talvez uma guarda prolongada, far-lhe-ia bem. Foi um dos que fiquei na memória.

Redoma tinto, amostra de casco da colheita 2008. Achei bom. Muito bom. Mas também, nunca bebi um mau Redoma. E era uma amostra de casco. Nem tinha sido ainda engarrafado.

A estrela do dia. Carnuntum 2007. Nunca tinha provado algo assim. Fiquei com ele bem presente, taninos fortes mas elegantes e possuía um final de boca descomunal!


Depois, foi um desfilar de Portos e o Moscatel. O tal Moscatel. Afinal aquela malta não tinha bebido tudo. Fiquei com a ideia que era mais doce que o nosso Moscatel, o de Setúbal, e menos estruturado.

O Dirk perguntou-me o que achava. Disse-lho taxativamente, “ é mais doce que o Moscatel de Setúbal. Mas não é tanto como o Favaios, é bastante interessante.”

- A sério? Mais doce? Bem, nós por aqui temos a pancada com a acidez, portanto…

Este foi o mote, para uns bons dez minutos de conversa com o Luis Seabra, acerca de Moscatéis velhos e novos e uma descoberta: Luis Seabra é um perdido pelos moscatéis da JMF, principalmente pelo Bastardinho de Azeitão 30 anos. Que adquiriu uma caixa.

Tudo dito, foi um dia soberbo. Espero lá voltar um dia destes.

Ps – o Tawny 20 anos abriu-se na sexta-feira, dia 2 de Março. É um Porto diferente, sem dúvida. Muitíssimo saboroso e muito estruturado, mas o maior elogio que lhe posso fazer é utilizar as palavras da Inês, “nem parece um Porto.” E isso diz quase tudo…

Prova de Vinhos Aneto, Wine o'Clock Lisboa, 08 Agosto 2012

A empresa familiar Sobredos foi criada no ano de 2001, com o objectivo primordial de obter pequenas produções com grande potencial qualitativo: os vinhos de marca Aneto.
 
São 7 há de vinha adulta plantada entre os 50 e os 250 metros de altura (com parcelas distintas e separadas por casta), situada bem no coração da região demarcada do Douro, em Sobradais e Malvêdos (freguesia de Castedo do Douro, concelho de Alijó), onde solos xistosos com ligeiros afloramentos de argila servem de base a castas tintas (Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinto Cão e Souzão), e solos graníticos servem da base a castas brancas (Semillon, Gouveio, Viosinho, Arinto, Rabigato, Malvasia Fina e Cerceal). O enólogo Francisco Montenegro (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo) apoia a produção, desenvolvida na adega da empresa situada em Barrô na Quinta de Fundo de Vila, que recebe visitantes mediante marcação prévia.

O Aneto 2002 Tinto representou a primeira colheita a ser engarrafada, existindo ainda no portefólio da empresa os Anetos Branco (introduzido na colheita de 2007), Reserva Tinto, Reserva Branco (introduzido na colheita de 2008), Grande Reserva Tinto (introduzido na colheita de 2006) e Late Harvest (introduzido na colheita de 2005). Da colheita de 2010 saiu um primeiro ensaio produzido em quantidades apenas residuais, o Aneto Pinot Noir.

No dia 08 de Agosto de 2012, a garrafeira Wine o’Clock de Lisboa uma prova dos vinhos Aneto, onde recolhemos as seguintes notas:

Aneto 2011 Branco (nova colheita)
Obtido a partir de Gouveio (25%), Malvasia Fina (25%), Rabigato (25%) e Viosinho (25%). De cor citrina, mostra flores secas no nariz expressivo, delicado, algo amanteigado e envolvido ainda em sugetões de limão. O ataque na boca é mineral e evidencia bom volume e elegância. A acidez está presente neste conjunto que termina com bom comprimento, focado no pimento verde e leve amargo vegetal.


Aneto Pinot Noir 2010
Obtido a partir de Pinot Noir (100%) vindimado na primeira semana de Outubro, plantado a alta altitude e com as vinhas viradas a norte. Estagiou 12 meses em barricas usadas, tendo sido engarrafado em Fevereiro de 2012. De cor rubi-violácea, apresenta aromas elegantes,  florais e com nuances de frutos vermelhos. No palato mostra boa frescura, corpo médio e taninos presentes mas discretos. Termina persistente e com suave amargo. Muito versátil, evidencia características para o consumo a solo ou à mesa, em hatmonização cuidada.

Aneto Late Harvest 2010
Obtido a partir de cachos botrytizados de Semillon (100%) vindimados em Dezembro. Estagiou 18 meses em barrica de carvalho francês, tendo sido engarrafado em Fevereiro de 2012. Não foi possível desgustar este Late Harvest que se encontrava já esgotado para prova.
 


Como apreciação final, não posso deixar de classificar esta prova como pouco enriquecedora. Para uma melhor apreciação do portefólio dos vinhos Aneto, era imperativo pelo menos a prova do seu Reserva Branco, para que os (poucos) presentes pudessem atestar o nível que algumas referências poderão (eventualmente) atingir... Foi um esforço da Wine o'Clock que tentou dinamizar o espaço durante uma época do ano algo difícil no que toca à presença de público devoto (Agosto), por isso fica aqui o meu agradecimento à equipa presente. No entanto, a impossibilidade da prova do Late Harvest aliada à selecção definida não permitiram que esta fosse um prova marcante, pelo contrário. Aguardemos pois a possibilidade de atestar melhor as reais qualidades dos vinhos Aneto, quiça numa prova organizada em conjunto com os responsáveis pela produção, onde normalmente o portefólio disponível atinje outros níveis...

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