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Monte do Além (Enoturismo - Odiáxere, Algarve)

Após algum tempo de ausência nos textos, hoje apresento aos nossos amigos e leitores uma experiência de enoturismo que me ficará na memória!
 

2013 foi novamente ano para mais umas férias em Setembro na região algarvia, na companhia da minha esposa. Confesso que gosto do Algarve nesta altura do ano, calmo, tranquilo, sem pressas, podemos ir à praia e escolher onde ficar, mergulhar nas águas de temperatura amena sem incomodar qualquer vizinho ao lado, passear à noite, comer um gelado ou ir às compras, tudo sem filas, sem confusão, ideal para relaxar e carregar baterias  para nova temporada, até às próximas férias...


Este é também um período ideal (não serão quase todos?) para um programa de enoturismo, que complementa as actividades das férias de forma muito especial. Após a visita à Quinta do Francês no Verão de 2012 (http://www.copo-meiocheio.blogspot.pt/2012/12/quinta-do-frances-enoturismo-algarve.html), desta vez foi o Monte do Além a responder positivamente ao desafio. A propriedade situada em Odiáxere, na zona do oeste algarvio, é o projecto de Vinciane Nieuwenhuys e Parviz, que arrancou em 2000 com a plantação de 6 ha de vinhas. O símbolo do projecto, presente nos rótulos e no chão da adega, é a serpente de Ouroboros, bem conhecida dos textos alquímicos como representação da eternidade, da continuidade dos ciclos. Para os responsáveis do Monte do Além, esta simbologia recorda que não existem verdades absolutas no ofício do enólogo, mas apenas uma busca sem fim pela perfeição, que deve ser baseada no conhecimento acumulado ao longo do tempo...
 
Actualmente, a vinha plantada em solos argilosos tem cerca de 5,5 ha e representa apenas castas tintas, das quais se obtêm baixas produções (3.500 L/ha), como recomendado para a obtenção de vinhos de qualidade. As variedades representadas são o Aragonez (predominante com cerca de 7.000 plantas), Petit Verdot, Syrah, Cabernet Sauvignon, Merlot e Grenache (a menos representada com cerca de 2.500 videiras). A vindima é feita apenas à mão, em conformidade com o modo de produção biológico adoptado. A construção da adega é recente (2009) e a gravidade encarrega-se de levar as uvas desde o piso superior onde são desengaçadas, até às cubas de inox onde decorrem as fermentações alcoólica e maloláctica, no piso inferior. Um outro ponto interessante é o reduzido recurso a dióxido de enxofre (SO2, também conhecido como anidrido sulfuroso), muito abaixo dos limites estabelecidos pela legislação europeia (60 mg/L vs. 160mg/L).

 
A visita ao Monte do Além decorreu no dia 13 de Setembro, e o tempo ajudou a um final de tarde bem agradável passado exclusivamente na adega. Fomos recebidos pela Antonieta, que conduziu todas as operações e se esmerou nas explicações para os dois ouvintes interessados. Ela é bastante próxima do projecto e executa diversas funções, quer na adega, auxiliando Parviz, quer ao nível da promoção e marketing.
 
A adega não é grande, mas encontra-se perfeitamente adaptada às necessidades de produção. No piso superior, um balcão permite apreciar mais abaixo a Serpente de Ouroboros na calçada que compõe o chão da adega, a utopia à vista de todos. Aqui em cima é onde se encontram cestos carregados de uvas escuríssimas, que exalam um perfume a fruto bem maduro: são cachos de Petit Verdot que vão sendo desengaçados à nossa frente. Estas uvas darão origem ao vinho mais importante da casa por esta altura, depois de ter ganho o Prémio do Melhor Vinho da Região do Algarve para a Revista de Vinhos (atribuído em 2013 para vinhos provados durante 2012): o Monte do Além Petit Verdot 2009. A azáfama é grande, ou não estivéssemos em período de vindimas, e é junto ao desengaçador que a proprietária Viviane nos recebe com um sorriso e um rápido cumprimento, que as uvas necessitam de atenção permanente!
 


Passando ao piso de baixo, conhecemos também Parviz, que está de volta das cubas de inox, dos mostos, das análises que vão orientando os trabalhos da adega. Aqui tive uma das mais interessantes experiências de que me lembro, pois generosamente Parviz deu-me a provar dois copos de vinho, um da cuba onde fermentava o mosto de Syrah, e o outro da cuba onde pontificava o Cabernet Sauvignon. Extraordinário provar o sumo de uva com apenas uma semana de fermentação, e mais ainda, as diferenças que são já notórias para cada variedade... Se a Syrah exibe um aroma a fruta bem madura envolvida em notas de alcaçuz, apresentando uma boca bastante fechada e acídula, o Cabernet Sauvigon apresenta-se antagónico, austero no nariz mas generosamente frutado e atrevidamente saboroso no palato, características que o processo fermentativo se encarregará de afinar para patamares de excelência. Neste piso destaca-se ainda o armazém, onde repousam milhares de garrafas à espera da chamada comercial, o corredor de estágio, onde muitas barricas de carvalho francês acondicionam os néctares que verão a luz do dia nos próximos tempos, e ainda um pequeno laboratório onde são feitos os diversos controlos necessários a uma exploração deste género.



Por consenso mútuo, não houve lugar a prova no final da visita, mas foi-nos oferecida uma garrafa para avaliar mais calmamente em casa o potencial dos vinhos do Monte do Além. Esta veio acompanhada de outras garrafas que nos foi possível comprar no local, e que serão alvo de nota de prova aqui no Copo Meio Cheio, mais ou menos brevemente, consoante o timing de saída da garrafeira.




Uma última nota de agradecimento à Antonieta pela visita que nos proporcionou e por um final de tarde muito bem passado. Agradeço também aos proprietários, Viviane e Parviz, que autorizaram a visita, e nos receberam de forma tão simpática. Foi um privilégio! O Monte do Além perfila-se como uma referência, que pode contribuir decisivamente para afirmar a região do Algarve como área de excelência na produção de vinho em Portugal. É o desafio de provar estes néctares que deixo a todos os seguidores e amigos do Copo Meio Cheio, pois é um exercício vencedor!



Notas de Prova 
Monte do Além Castelão 2009
Cor vermelha e aromas fortes a frutos silvestres, arbustos e couro. Na boca apresenta taninos nervosos e bem presentes, não é muito encorpado, terminando num final de médio comprimento, com o foco novamente na fruta silvestre.
 
Este é um vinho especial no portefólio deste produtor, na medida em que é o único que não é elaborado com uvas da propriedade (o Castelão não faz parte das castas plantadas no Monte do Além). Tratou-se assim de um experiência, com um resultado final curioso, relativamente próximo do perfil global dos tintos típicos algarvios, mas a que faltará profundidade. Aguardemos a prova dos Aragonês, do Petit Verdot e assim que possível do Syrah-Grenache, que muita curiosidade me desperta...



Miguel Zegre escreve de acordo com a antiga ortografia

Quinta do Francês (Enoturismo - Algarve)

Ao passarmos Odelouca, pequena localidade situada no concelho de Silves a cerca de 11 km de Portimão, sabemos que apenas poucos instantes nos separam do edifício da Quinta do Francês, que surgirá brevemente no horizonte no meio de alguns hectares de vinhas. A fonte, que é a imagem de marca deste produtor algarvio, fica no início da curta estrada que leva o visitante até esse edifício, onde funcionam a adega, a loja de vinhos, a sala de provas, a cave de estágio, o laboratório de análises e também o armazém. O muro logo à frente do edifício serve também de miradouro para a área vitícola da propriedade (8,5 hectares): Trincadeira à esquerda, Aragonês à direita, Syrah ainda mais à direita numa elevação e mais lá ao fundo, junto à ribeira, as cepas de Cabernet Sauvignon, normalmente as últimas uvas a serem vindimadas. Conforme se percebe facilmente, aqui apenas se encontram plantadas quatro castas tintas, pelo que as uvas que estão na origem do único vinho branco produzido são compradas na região de Lagoa.

Tânia Silva é a relações públicas da Quinta do Francês, e recebe de forma sorridente e bem-disposta os visitantes àvidos de mais uma experiência enoturística que correspondeu às expectativas criadas. A loja de vinhos é um espaço confortável e amplo, é visível o bom gosto na organização à volta do tema esperado (adivinhem qual...), uma mesa preparada para receber grupos maiores para provas, mas também um balcão destinado a esse fim, num estilo diferente mas genuíno pelo qual optámos no momento da nossa prova. Muitas garrafas da Quinta do Francês encontram-se expostas, bem como medalhas conquistadas em concursos nacionais e internacionais.
 
A adega mostra-se como um espaço não muito grande mas suficiente para a produção, ocupado por cubas de inox, um desengaçador e um tapete de selecção, entre outros aparelhos mais ou menos complexos. No dia da nossa visita, foi possível assistir à liderança de Cláudia Favinha (enóloga da Wine ID, equipa de António Maçanita) sobre todas as operações feitas na adega. Esta enóloga presta também serviço para outros produtores algarvios como Paxá Wines (Quinta do Outeiro) ou José Manuel Cabrita (Quinta da Vinha). Também o produtor Patrick Agostini e António Maçanita têm uma palavra a dizer quanto às decisões finais em matéria enológica, que definem os vinhos que saem da Quinta do Francês.

No andar inferior, a cave de estágio é um espaço também à medida das necessidades, onde descansam muitas dezenas de barricas com o precioso líquido que faz as delícias dos consumidores. Algumas são palco de experiências da equipa de enologia e possivelmente não verão a luz do dia do ponto de vista comercial... O laboratório de análises é simples mas funcional, e disponibilizará alguma informação importante em tempo útil. O armazém completa as divisões deste piso e possui uma área importante para guardar toda a produção, onde descansam algumas paletes completas de vários vinhos da casa, caixas de madeira destinadas ao topo de gama e muitas garrafas magnum que são alvo de cobiça dos visitantes... É aqui também que se rotulam todas as garrafas individualmente numa mesa preparada para o efeito. De volta ao piso superior, preparamo-nos para o culminar deste programa de enoturismo com a esperada prova de cinco vinhos do portefólio da Quinta do Francês, da qual vos deixo de seguida as principais notas.

Encostas de Odelouca 2010 Branco
Lote de Arinto e Crato Branco com uvas compradas fora da quinta (da região de Lagoa). Apresenta cor palha aberta e aromas a citrinos maduros (limão) com ligeiro toque de alperce. Na boca mostra alguma frescura, corpo leve e persistência mediana, um branco simples e directo que poderá harmonizar com entradas menos elaboradas, saladas e peixes magros. (Preço recomendado: 5,50 €)

Encostas de Odelouca 2011 Rosé
Cabernet Sauvignon e Syrah. Cor rosada, bem frutado no nariz com as framboesas em evidência sobre outros frutos vermelhos. No ataque apresenta algum corpo, boa acidez e termina com persistência assinalável. Um rosé elaborado a pensar na mesa, nomeadamente peixes grelhados e carnes brancas, uma boa opção! (Preço recomendado: 4,50 €)
 
Encostas de Odelouca 2009 Tinto
Aragonês, Trincadeira e Cabernet Sauvignon. Cor vermelha-escura. Aroma complexo envolvente, notas de ameixa e cereja, frutos vermelhos maduros e leve tosta. Na boca revela boa sugestão de especiarias, foco no pimento verde, perfil guloso, saboroso e alguma acidez no final persistente. Beneficia com a decantação prévia. (Preço recomendado: 7,49 €)
Odelouca 2010 Tinto
Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Syrah. Cor vermelha-escura, nariz bastante fresco, acidez presente, cerejas, compota de morango. Na boca é um vinho mais delgado que o anterior (2009), menos encorpado e mais curto no final, onde a fruta predomina nas últimas sensações da prova. (Preço recomendado: 7,49 €)
 
Quinta do Francês 2009 Tinto
Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Syrah (lote com 25 % de cada uma). Cor rubi brilhante. Aroma complexo, químico (ceras e leve verniz), fruta vermelha pouco madura, sugestão de framboesa. Mostra-se com bons taninos na boca encorpada, algumas especiarias bem presentes e acidez ainda nervosa. O final é de um bom comprimento, mas é um vinho ainda em evolução, a precisar de (pelo menos) um par de anos em garrafa para harmonizar e elevar o patamar. (Preço recomendado: 15,99 €)

Em jeito de conclusão, não queria deixar de mencionar a grande qualidade de alguns dos vinhos produzidos no Algarve, em que se incluem os produzidos na Quinta do Francês. É uma região que vale a pena visitar, pois programas de enoturismo não faltam!
 
Fica aqui um agradecimento especial à Tânia Silva que tão bem nos recebeu, e os votos de que o bom trabalho continue por terras de Odelouca. Para terminar, não podia deixar de agradecer ao meu amigo Paulo Simões, que tem grandes responsabilidades nesta visita :-) Um grande abraço!

 


 



 
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